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Redução do volume de resíduos atinge em cheio quem vive da reciclagem


fonte: https://extra.globo.com/noticias/rio/reducao-do-volume-de-residuos-atinge-em-cheio-quem-vive-da-reciclagem-24944731.html
categoria: Coleta Seletiva

Há 16 anos, Clarice Luis, de 60, tira do lixo reciclável o sustento da família. A catadora mora em Brás de Pina com três filhos, com idades entre 21 e 25 anos. O mais velho, Jefferson, trabalha com a mãe na cooperativa como ajudante de caminhão. Mas, desde que começou a pandemia, a situação da família ficou mais difícil. A redução da circulação de pessoas nas ruas, por conta do home office, a suspensão dos grandes eventos, como carnaval e réveillon, de onde tiravam ganhos extras substanciais, entre outras medidas de restrição impostas para enfrentar a pandemia do novo coronavírus atingiram em cheio os catadores, que viram minguar o volume de resíduos de onde sai o seu ganha-pão.

— Os grandes eventos eram uma renda extra. Era com esse dinheiro que comprava minha roupa de Natal, presentes para os afilhados, e fazia a ceia. Agora está apertado — reclamou Jefferson, que chegou a ficar três meses sem trabalhar.


Maria do Carmo Barbosa de Oliveira, a Carminha, presidente da Coop Quitungo, em Brás de Pina, onde Jefferson e a mãe trabalham, diz que a pandemia pegou a cooperativa sem caixa. E logo no começo, teve de fechar para proteger os 14 cooperados, a maioria mulheres e do grupo de risco. Com parceiros, conseguiu cestas básicas para ajudar os trabalhadores a atravessarem esse momento difícil.

A reabertura foi em agosto, adotando medidas de proteção. Mas, como recebe recicláveis de 15 órgãos públicos, como Marinha, Tribunal de Justiça, Correios e INSS, a cooperativa e seus catadores ainda enfrentam as consequências do trabalho remoto nessas repartições. A média de resíduos coletados, que atingia até 40 toneladas por mês, caiu pela metade.

— Deu uma melhoradinha, mas a falta de material (reciclável) não está ajudando — queixa-se Carminha.

Durante o período mais difícil da pandemia, a família de Clarice sobreviveu com ajuda das cestas básicas, distribuídas pela cooperativa, e das três parcelas do auxílio emergencial do governo federal, que somaram R$ 1.500. O valor é quase o mesmo que mãe e filho tiravam por mês com a coleta de recicláveis.

A catadora lamentou também a suspensão do carnaval, época quem que mais faturava. Agora, com o avanço de novos casos de Covid, teme que a situação enfrentada no ano passado se repita.

— Hoje a gente está trabalhando aqui, mas na incerteza. Não sabemos o que vai acontecer daqui por diante. Tenho medo de ficar sem trabalhar de novo nessa segunda onda da pandemia — teme a Clarice.


Clarice é uma entre 14 trabalhadores de cooperativa que precisou pararClarice é uma entre 14 trabalhadores de cooperativa que precisou parar Foto: Maria Isabel Oliveira
Coleta domiciliar caiu

Na Cooperativa Transvida, na Vila Cruzeiro, os 15 catadores vivem da coleta seletiva feita nas casas de moradores da comunidade, onde recolhem em média 29 sacões de resíduos a cada 15 dia. São latinhas, garrafas, alumínio e plásticos, que, revendidos, rendem de R$ 1 mil a R$ 1.500, valor que é repartido entre os cooperados.

A cooperativa conta também com resíduos que recebe da UFRJ. Só que, após a suspensão das aulas, o volume também caiu. Com a renda reduzida, a Transvida não consegue sequer cuidar de sua burocracia.

Com ata vencida desde janeiro de 2020 e sem dinheiro para atualizá-la, não consegue participar de editais que abrem a porta para a coleta seletiva em órgãos públicos e grandes empresas privadas. Também não consegue abrir conta em banco.

— Só para atualizar a ata precisaríamos de cerca de mil reais. E ainda existem gastos com contador. A gente vai fazer isso esse ano — prevê a presidente da cooperativa. Ilaci de Oliveira.

Réveillon: coleta 89% menor

No último réveillon, sem queima de fogos nem shows em Copacabana, que teve os seus acessos fechados para evitar aglomeração, os garis recolheram, nas areias do bairro 351 toneladas de resíduos, uma queda de 89% na comparação com a virada de ano passada. Em toda orla, a redução foi de cerca de 75%, segundo a Comlurb.

A coleta seletiva domiciliar, sofreu um pequeno acréscimo. A companhia recolheu média mensal de 1.585 toneladas entre março de 2020 e fevereiro de 2021. No período anterior, o volume ficou em 1.505 toneladas. O material vai para 25 núcleos de cooperativas credenciadas.

Sem eventos, milhares de reais a menos

Grandes eventos que foram suspensos por conta da pandemia sempre representaram um importante ganho extra para os catadores. Nessas ocasiões, com mais gente nas ruas e a cidade cheia de turistas, eles conseguem em poucos dias ganhar o que levam um mês inteiro de trabalho duro para obter.

Só no último carnaval, foram retiradas 35,2 toneladas de resíduos das ruas e encaminhados para a reciclagem. Considerando só projeto de Coleta Seletiva do Carnaval de Rua, foram cerca de R$ 175 mil que as cooperativas deixaram de arrecadar sem a folia este ano.

As estimativas são da Boomerang Soluções Ambientais, que resolveu organizar uma vaquinha virtual e está recebendo doações através do link http://vaka.me/1798828 para ajudar as 22 cooperativas que no carnaval passado fizeram a coleta dos resíduos deixados pelos foliões nos 40 maiores blocos da cidade, como o Bola Preta, Bloco da Preta, Bloco da Anita, Simpatia é Quase Amor e outros. A meta é arrecadar R$ 22 mil.

— Até o ano passado, quando tudo começou, a gente tentou ajudar algumas cooperativas, dando cestas básicas para as mais necessitadas e com doação de fogão para uma. Nas cooperativas não existe salário fixo, a renda deles (os catadores) vem da produção diária. Com a pandemia, parou tudo, e eles ficaram sem resíduo nenhum e com isso não recebem (dinheiro) também. Esse ano, por não ter tido o carnaval, a gente resolveu fazer uma vaquinha específica para o pessoal que trabalhou com a gente no carnaval passado — explicou Bruno Gerk, gestor de projetos da Boomerang.

 

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